Trabalho desenvolvido a partir do Capítulo VII “A fusão da gramática com a coerência comunicativa”, em “Dimensões Comunicativas no Ensino da Língua” de José Carlos Paes de Almeida Filho

O ENSINO DA GRAMÁTICA NA ABORDAGEM COMUNICATIVA

                                                                                                                                          Ana Luisa Juayeck
Gabriela Berbert Rolim
Laura López Vargas

Resumo:
O objetivo desta pesquisa é confrontar diferentes pontos de vista respeito à inserção da gramática na abordagem comunicativa como orientadora do processo ensino-aprendizagem do PLE.

Palavras chaves: Abordagem comunicativa – Gramática – Português Língua Estrangeira (PLE).

Resumen:
El objetivo de esta investigación es confrontar diferentes puntos de vista respecto a la inserción de la gramática en el abordaje comunicativo como orientadora del proceso enseñanza-aprendizaje del Portugués Lengua Extranjera (PLE).

Palabras claves: Abordage comunicativo – Gramática – Portugués Lengua Extrangera (PLE).

Introdução:

No atual processo de ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras, ocorre o convívio de metodologias e abordagens, o que possibilita o desenvolvimento de um ou outro método e até mesmo a combinação deles com o objetivo de promover o desenvolvimento das habilidades dos alunos e/ou o fortalecimento de suas capacidades, visando sempre atender suas necessidades.
Os muitos métodos de ensino, utilizados no ensino de línguas estrangeiras no decorrer dos tempos, apresentam traços particulares que os distinguem superficialmente uns de outros. No entanto, vamos argumentar aqui que o estudo da gramática como elemento fundante, tem estado presente tanto no ensino quanto na aprendizagem de línguas estrangeiras.
Precisamos reconhecer então que a gramática sempre esteve presente, mesmo que de forma implícita, na organização e no suporte ao ensino de línguas nas escolas.
Isto nos levará à defesa ou à rejeição quanto ao uso da gramática na abordagem comunicativa como orientadora do processo ensino-aprendizagem do PLE.

Desenvolvimento:

Segundo Almeida Filho (1993) ensino comunicativo é aquele que não toma as formas da língua descritas nas gramáticas como o modelo suficiente para organizar as experiências de aprender outra língua, mas sim aquele que toma unidades de ação feitas com linguagem como organizatórias das amostras autênticas de língua-alvo que vão ser oferecidas ao aluno-aprendiz. Temos agora o surgimento de uma abordagem comunicativa, uma abordagem que filosoficamente afasta a gramática como organizadora mor ou orientadora do processo de ensino-aprendizagem de língua. Isto não quer dizer que para a abordagem comunicativa a gramática não tenha valor. Ela o tem, sem dúvida uma vez que a estruturação gramatical da língua é base para a comunicação de todo modo. O que ocorre agora é que se reconhece um nível mais alto de abstração do processo de ensino e aprendizagem acima dos métodos. Segundo Anthony(1963), acima dos métodos há abordagem e é lá que encontram as concepções que de fato marcam os métodos. O ensino de regras e vocabulário praticados via exercícios ou tradução não é mais suficiente para se obterem resultados na aquisição de uma competência comunicativa, mas sim a habilidade de construir significados na linguagem produzida na interação e com os outros na língua-alvo; e promover um ensino que considere as atividades de real interesse e/ou necessidade do aluno, para que ele seja capaz de usar a nova língua na realização de ações verdadeiras na interação com os outros usuários dessa língua.
Se há agora uma abordagem comunicativa a ser considerada ela deve ser tomada em oposição a outra abordagem. Os métodos de base gramatical se originam em uma matriz de abordagem virada para o estudo da gramática como base organizatória para todas as materialidades que praticamos como professores e aprendizes no ensino formal de idiomas. Queremos reconhecer aí uma ABORDAGEM GRAMATICAL, com seus conceitos fundantes de língua/linguagem/língua estrangeira ou segunda, de aprender essa língua e de ensiná-la com sistematicidade. Na história do ensino de línguas do Brasil haveremos de reconhecer muitos métodos gramaticais que, por força da abordagem que os rege, fazem-nos pertencer a uma família própria de métodos gramaticais. Ao reconhecer isso, reconheceremos dois grandes modelos de organizar o ensino de línguas que não mais se representam como uma sucessão livre de arranjos metódicos ao sabor dos motivos de cada época. As abordagens são arranjos superiores que designam, em última instância, filosofias de aprender, adquirir e ensinar línguas, sejam elas maternas (LM) ou não-maternas (estrangeiras ou segundas) (Leticia Sateles – Almeida Filho)
O medo de produzir uma fala estigmatizada persegue os alunos. Em muitas ocasiões eles pedem aulas de gramática, pois têm internalizado o valor da gramática normativa. Consideram o domínio da norma como um fator de status e querem reproduzir na língua estrangeira este mesmo status. Quanto a abordagem comunicativa, exerce um apelo sedutor sobre todos aqueles que buscam se comunicar o mais rapidamente possível num outro idioma, e sobre um mercado promissor como o de línguas estrangeiras, ávido por conquistar mais e mais clientes.
A abordagem comunicativa foca o ensino da língua estrangeira no sentido, no significado e na interação intencional entre sujeitos. Esta abordagem inspirou-se nos trabalhos de etnografia da comunicação desenvolvidos por HYMES (1991). Segundo este autor os membros de uma comunidade linguística possuem uma competência linguística e uma competência sociolinguística, ou seja, um conhecimento conjugado de formas gramaticais e de normas de uso que, no caso da língua materna, são adquiridos de forma simultânea e implícita. Saber comunicar significa então ser capaz de produzir enunciados linguísticos de acordo com a intenção de comunicação (apresentar-se, pedir permissão, desculpar-se, fazer um convite, etc.) e conforme a situação de comunicação (status, posição social do interlocutor, relações pessoais ou profissionais, etc.).
Se o ensino da língua estrangeira deve ter seu foco direcionado à comunicação, o ensino da gramática, segundo esta abordagem, deve ser nocional, contentando-se com a organização do sentido. Se as atividades gramaticais estão a serviço da comunicação, os exercícios formais e de fixação (os drills, por exemplo) deram lugar aos exercícios de comunicação real ou simulada, mais interativos. O aluno é levado a descobrir, por si só, as regras de funcionamento da língua, através da reflexão, da elaboração de hipóteses, gerando uma maior participação do aluno no processo de aprendizagem.
A abordagem comunicativa considera como melhor modelo de linguagem para a sala de aula a linguagem autêntica (que não foi produzida para ser usada em aula, mas surgida das interações reais entre nativos no dia a dia), real (que se refere ao que de fato acontece e não a que é usada como simples exemplo para elucidar uma regra gramatical, por exemplo), focada no sentido e não na forma (a forma seria internalizada de modo dedutivo) e baseada nas necessidades do aluno.
No entanto, desde outro enfoque, podemos dizer que ainda não se tem conhecimento de nenhuma pesquisa que ateste que a abordagem comunicativa – com sua supervalorização dos atos de fala e seu “desprezo” pela gramática seja a mais eficiente. Seria necessário observar diversos alunos por vários anos, estudando em condições iguais, uns com enfoque comunicativo e outros com outro enfoque, para que no final se medissem as habilidades adquiridas e se avaliasse seu desenvolvimento nas quatro competências (compreensão e expressão orais e escritas).
WELKER (2003, p. 3) sustenta que a organização do ensino segundo os atos de fala é muito problemática e que por isso seria recomendável que a progressão fosse estabelecida conforme a gramática, pois nos estágios iniciais, é muito importante a sequência em que os fatos gramaticais são apresentados, dada sua inequívoca capacidade de generalização. Diz o autor: “Tem-se a impressão de que dois fatos foram esquecidos pelos defensores do método comunicativo: a) uma única regra gramatical permite a formação de milhares de enunciados, ao passo que cada ato de fala é único (com a complicação adicional de que há várias realizações possíveis, as quais têm que ser aprendidas, decoradas), exceto atos comunicativos pouco específicos como “narrar algo”; b) não existe ato de fala sem regra gramatical, salvo enunciados que consistem em uma única palavra (por exemplo, Fogo!) ou em expressões idiomáticas (nas quais as regras gerais podem não ser obedecidas); geralmente precisa-se até mesmo de várias regras gramaticais para realizar um único ato comunicativo e de numerosas regras para realizar atos comunicativos gerais como o citado “narrar algo‟”.
No ensino de língua estrangeira, o objetivo, sem dúvida, tem de ser o domínio da competência comunicativa, mas o problema dos comunicativistas foi inverter a ordem, priorizando os atos de fala em detrimento da gramática. Isso só se mostra viável nos níveis intermediário e avançado, quando as regras gramaticais básicas já foram devidamente aprendidas. Percebe-se em relatórios feitos pelos alunos, a importância que dão à falta de um conhecimento gramatical consistente e de um trabalho fonético mais eficaz. Consideram como sendo este o fator de tanta insegurança no uso da língua estrangeira.
O ensino de gramática é considerado nos cursos de PLE como algo tradicional (no sentido de antigo, ultrapassado, negativo) e ineficaz. Essa pretensa consciência crítica seria bastante eficaz se revelasse uma tentativa de se buscar um método que pudesse otimizar o ensino/aprendizado de FLE, mas não parece ser isso o que acontece. A preferência por não se enfatizar a gramática parece ser, por parte dos diretores de cursos, uma opção para atrair os alunos e, sobretudo, para não os perder.
Pode-se dizer que a abordagem comunicativa faz parte das práticas dos professores, mas não totalmente. Muitos professores que atuam em cursos de idiomas e em colégios revelam ter opções diferentes para cada situação, e justificam o uso do método tradicional – principalmente nos colégios – por questões de ordem estrutural (turmas muito numerosas e/ou heterogêneas; limitações quanto ao espaço físico que não permitem a organização das carteiras de forma a favorecer o trabalho em grupo, carga horária ínfima; falta de recursos materiais como vídeo, som e internet).
O mais interessante é que os diretores de curso, de um modo geral, parecem não aceitar a denominação que, ao que tudo indica, já é bem aceita pelos professores. Indagados sobre um possível ecletismo metodológico em seus cursos, fazem questão de refutar a informação, dizendo que seus cursos seguem o “método comunicativo”. Para esses diretores, defender o ecletismo soa demonstrar o não conhecimento efetivo de um método, um desconhecimento das novas tendências, uma atitude que lhes parece “pouco profissional”. Associam o termo eclético a algo inconsistente, amorfo, que definitivamente não satisfaz ao mercado, que não “se vende”: “dizer que se é eclético é a mesma coisa que dizer que não se é nada.”
Após anos a fio de abordagem comunicativa percebe-se uma insatisfação dos alunos que se sentem “iludidos”, que se deparam com uma inconsistência de conhecimento, que se queixam da falta do “conteúdo gramatical” na sua formação. Os métodos e os cursos flexibilizam então suas práticas, abrem espaço para que a gramática e, muitas vezes, até mesmo a língua materna retornem à sala de aula. As práticas pedagógicas mostram-se cada vez mais ecléticas, mas seus atores recusam esta denominação e continuam se dizendo comunicativos, ainda que já não adotem esta abordagem de forma tão contundente.

Considerações finais

Durante muitos anos esteve-se à procura de um método perfeito, atualmente a ideia mais disseminada entre os pesquisadores é a da inexistência do mesmo. Esta conclusão baseia-se na grande diversidade de fatores sociais, cognitivos e culturais envolvidos no processo de ensino/aprendizagem. Atualmente, o ensino-aprendizagem de língua estrangeira é a favor de um ecletismo que daria maior liberdade ao professor para escolher as metodologias que ele considera de acordo ao contexto onde se desenvolve.

REFERÊNCIAS

 ALMEIDA FILHO, J. C. Dimensões comunicativas no ensino de línguas. Campinas, SP: Pontes, 1998.
 ALMEIDA FILHO, J. C. e SATELES, Leticia. Breve Histórico da Abordagem Gramatical e seus Matizes no Ensino de Línguas no Brasil
 OLIVEIRA, Nilceia Bueno. Crenças de professores de língua estrangeira de escola pública sobre os métodos (abordagens) de ensino: um estudo sob a ótica da análise crítica do discurso. IESC-CAMÕES; PG-PUCPR
 JORDÃO, C. A língua estrangeira e a formação do indivíduo. In: PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação – Departamento de Ensino Fundamental. Diretrizes Curriculares Estaduais – Língua Estrangeira Moderna (versão preliminar). Curitiba: SEED/PR, 2005ª
 BRASIL. Secretaria de Ensino Fundamental/MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais – língua estrangeira. Brasília: MEC/SEF, 1998.
 EDMUNDO, E. Relato de uma experiência de grupo como oportunidade de formação continuada. In: GIMENES, T., JORDÃO, C. & ANDREOTTI, V. Perspectivas educacionais e o ensino de inglês na escola pública. Pelotas: EDUCAT, 2005, p. 107 a 126.
 Reviista Eletrônica do Instituto de Humanidades IISSN–1678—3182 – Volume VII Número XXVI Jul- Set 2008
 RODRIGUES, Luiz Carlos (UFRJ) Reflexões sobre abordagem comunicativa no ensino de Francês Língua Estrangeira: seu apelo sedutor e a ilusão do aprendizado
 WELKER, H. A. O ensino de alemão para principiantes: objetivos, métodos, exercícios manifestos no material didático. Universidade de Brasília, 1988. 63p. Disponível em: <http://www.unb.br/il/let/welker/ensino1988.doc&gt;. Acesso em: 07/09/2013.

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2 pensamentos sobre “Trabalho desenvolvido a partir do Capítulo VII “A fusão da gramática com a coerência comunicativa”, em “Dimensões Comunicativas no Ensino da Língua” de José Carlos Paes de Almeida Filho

  1. Como sempre, vocês escrevem muito bem.
    Sobre não haver mais método leiam “There Is No Best Method-Why?” Prabhu. Texto muito interessante sobre isso.
    Outro que vocês podem consultar é “The death of the method” ALLWRIGHT. Deve ter alguma tradução por aí.
    Abraços

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